Releitura é “cover”?

Muito se discute entre as expressões artísticas a questão da originalidade, e se cabe nesta releituras e continuidades com mentalidades e momentos históricos anteriores. Ser original para alguns é mera categoria de gênio e que “nada” tem de resquícios ou influências precedentes. J. S. Bach, compositor alemão do período barroco é entendido, por exemplo, como gênio incomparável na história da música ocidental. É comum associar a polifonia quase que exclusivamente a ele; e por ter um alto número de peças, Bach é visto com admiração sobrehumana. Embora sejam inquestionáveis a riqueza e a importância histórica e musical de suas composições, faz-se necessário também desmistificá-lo e compreender que a musicologia seleciona consciente ou inconscientemente quem deve ser rememorado e acaba por cometer equívocos até mesmo românticos em prol de determinado “gênio mistificado”.

Não se pode esquecer que outros compositores barrocos foram tão surpreendentes e criativos quanto Bach, afinal o zeitgeist, ou seja, o espírito do tempo, em questão, favorecia o desenvolvimento de características peculiares, que nos fizeram “rotular” com o nome de Barroco.

É evidente que há aspectos originais em Bach; porém nestes também se notam permanências, e mesmo releituras, de sonoridades e timbres de épocas anteriores a ele. O que é muito saudável para uma comunidade, tendo em vista que esta está em constante transformação e ressignificação de necessidades e afinidades.

Aliás, as releituras se dão até os dias de hoje, embora às vezes por não se ter um conhecimento prévio não se perceba que algumas práticas e/ou manifestações artísticas são releituras. Como é o caso do projeto “Beatles Go Baroque”: quando se conhece um pouco do estilo barroco a apreciação deste projeto se torna mais completa.

Esta e outras tantas releituras não são cópias, meros “covers”. O que cabe aqui ressaltar que o Brasil possui, infelizmente, muitos músicos que se voltam para o cover “fidedigno” de determinado artista já consagrado. Isso é problemático porque acaba com nosso potencial criativo e se torna, portanto, a eterna reprodução do mesmo.

Releituras, enfatizando mais uma vez, não são cópias, são novas possibilidades de interpretação de acordo com as indagações do tempo presente. Nada se rompe bruscamente, mas se ressignifica.

Texto de Nívea Lins

O Que é Ser Original?

“Feito pela primeira vez”, “que não é copiado nem reproduzido”, “que tem caráter próprio”, “excêntrico”, “padrão que inspira imitações”, são algumas das definições que o dicionário Michaelis traz para a palavra “original”. Mas, afinal, o que é ser original e o que é ser original quando se trata de música? Qual é a “dose certa” para a originalidade?

William Shakespeare era altamente criativo centenas de palavras. Mas Shakespeare viveu numa época em que os artistas evitavam invenções desnecessárias, pelo contrário, a arte “boa” era aquela que copiava a antiguidade clássica. Originalidade era coisa de lunáticos. Mas Shakespeare inventava quando achava que devia, sem se tornar escravo da invenção.*

A psicologia nos mostra que as pessoas ao produzirem algo deixam “assinaturas”, e isso é claramente visto no estilo de escrita das pessoas, como o uso de determinadas palavras e expressões. Nas artes plásticas e na música podemos perceber vários traços dos criadores, como o emprego característico de determinadas tonalidades, as expressões faciais, as formas geométricas, as sequências de acordes, as nuances das melodias…

Tais assinaturas artísticas, além dos nossos fatores intrínsecos, podem ter relação com o fato de gostarmos ou não de uma obra. Consideremos como exemplo dois compositores do barroco, J. S. Bach e G. F. Händel, a maioria das pessoas terá um preferido, pois terá uma identificação maior com a personalidade do artista “impressa” em sua obra. Isso levanta a questão: e quando a expressão não é uma expressão? E quando o artista apenas copiou algo que já existe?

Encontramos arte igual em qualquer período da história, contudo, atualmente tem-se assistido a uma explosão de arte comercial que nunca se viu igual. O objetivo é vender sem se preocupar com a qualidade do “produto”. Não é errado vender arte e viver disso, é errado fazer propaganda enganosa, alegar vender arte enquanto se vende uma cópia barata. E chega a ser triste consumir essa “pseudoarte”.

Quem, em um passeio pela rua, nunca se perguntou “mas essa não é a mesma música que acabou de tocar?”, e outro responde “não, essa é do Fulaninho e a outra é do Ciclaninho” (mas os acordes e até melodia e letra são praticamente iguais). Finalmente, tenta-se questionar a qualidade da “arte” que nos é oferecida e praticamente imposta, questiona-se como mudar esses padrões, e questiona-se como criar seja o que for, mas criar de verdade.

*Referência: http://brunolacerda.com/2011/05/21/originalidade/

Texto por Alirio Aimola